terça-feira, 17 de agosto de 2010

Anjos.

Trabalhados nos traços marcados, que desenham na sua já tão vivida pele, os sinais de fraternidade, tão acentuados pelo tempo - quem irá negar que também pelo vento - lhe deixam com uma aparência de delicadeza, de paz, de muitas luas passadas. Sua boca, na maioria das vezes, preenchida de dentes que não lhe são naturais, adornam a sua face, que leva bem na frente de seus olhos que já viram de tudo, um par de óculos antigos. Os cabelos da cor da neve, lhe recaem sobre os ombros, ou simplesmente estão curtinhos, forrando o ápice da tal pintura que se forma. O corpo, já muito judiado pelo sol - afinal, são humildes e trabalhadores- descansa sempre em cima de uma cadeira de balaço.

As roupas, tão macias e com cheiro de antiguidade e lavanda, se combinam entre si - e se descombinam também. A sandália com meia de lã, dá o toque acolhedor a pintura, que, se não fossem as pinceladas de crochê, não estaria taõ bela. Sempre querendo contar histórias de sua época, fatos, contos, causos, receitas, aventuras. Defendem com vigor a sua opinião; opinião que tem muitos fundamentos, afinal já viram muitos anos passarem, já viram muitas coisas e viveram outras mil. São a voz da experiencia, da sabedoria. Seja parar fazer uma receita de bolo ou para opinar na escolha da faculdade, o conhecimento que é marcado físcamente na pele, é difundido por suas sábias palavras de conselho, aconchego, ternura, amor.

No lugar das asas, eles carregam a fiel companheira de madeira - ou bamboo- a bengala. E com seu jeito único e inovador, estão na nossa vida, graças aos pais deles e também aos nossos pais. Nos mimando com dezenas de presentes, nos educando à maneira antiga, nos engordadno com seus milhares de pães-de-queijo. Aprendi com eles a admirar as coisas simples, dar valor aos familiares, aprendi a ouvir e mais de mil lições impagáveis. Eles são assim, tudo pra mim e nunca deveriam ter fim.

Ess é o único problema: tanta maravilha tem prazo de validade e, na maioria das vezes, é frágil. Vê-los assim tão frágeis, tão porcelanados, parecendos os mais delicados cristais. Me afligue vê-los sofrer, como sofrem. Por favor, alguem... Alguem não os deixe partir assim. Sei que eles são anjos em forma humana que permanecem um tempo na terra para nos dar um pouco da sua cativante graça, para depois poderem seguir tranquilos no seu caminho rumo a eternidade. Mas não quero os perder, sou egoísta; quero tê-los para sempre aqui comigo. Se existe um ser divino, que ele não os tire de mim agora. Assim, eu vou poder admirar por mais tempo essa maravilhosa forma humana que os anjos assumem aqui na terra que, carinhosamente, chamamos de: avós.

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